Meus pés estão gelados como os de um morto. Sinto calafrios na espinha. Sei que estou rodeado de espíritos. Quem não está? Eles nos rondam. Nos rodeiam. Sabem o que fazemos e o que queremos fazer. Mesmo antes de querermos fazer.
Há uma minúscula mosca mostrando-se útil em minha
s feridas abertas. Expostas. Põe suas larvas. Faz o milagre da reprodução. Sou a fêmea. Ela o macho. Deposita em mim o seu futuro. Deixo-a pôr. Minha mente ferve pelo ocorrido de mais cedo. Vi (é verdade) um menino correndo como um louco no meio da estrada. Saltava calçadas e corria no meio da estrada. Desnudo, o menino não queria querer. Só queria correr e correndo desnudo ia pelas estradas da vida.
Não me entendo nem um pouco. Sei que sou louco e que decidi escrever esse diário como que um diário de minha vida, mas o que escrevo são coisas que nem eu mesmo sei se são verdade... devia parar de escrever. Mas como vou saber se as palavras vão querer estar nesse papel?
Vou reiniciar.
Logo pela manhã fui acordado pelo som estrondoso do rádio de meu pai. Não lembro-me muito bem que música ele tocava. Mas era uma que chegava a doer nos ouvidos. É um rádio toca-fitas de carro, que foi equipado e locado dentro de uma caixa de madeira e, acoplado à ele duas caixas de som reaproveitadas de um outro aparelho e que chiavam mais do que reproduziam os sons.
Não me levantei. Fiquei deitado ainda por alguns vinte ou trinta minutos. Como creio que aconteça com todo mundo. Aproveito esses momentos de pré-levantar para pensar na vida. Olho o telhado velho, cheio de teias de aranha, e o imagino-o como a minha vida: a cada junção de telha uma sujeira.
A coragem veio depois disso e me sacudiu cama a baixo, levando-me até o banheiro. O espelho e o vaso já me esperavam. Mijei durante alguns segundos (são poucas as vezes que mijo por muito tempo). Não me olhei no espelho hoje. E também não ajeitei nem molhei meus cabelos. Deixei-os como estavam.
Peguei minha escova de dentes e a embebi de pasta. Com um copo d’água na mão, fui escovar os dentes na calçada. A rua deserta me fez lembrar dos tempos de criança, quando saíamos em bando para tomar banho de açude ou mesmo fazer traquinagem nas portas das casas das velhas senhoras do bairro. Sempre éramos recebidos com carões.
O rapaz do pão não veio hoje. Deve ter adoecido. Veio outro, um substituto. Entrei.
Liguei a tv. Enquanto tomava meu café com pão e margarina, as notícias saiam da boca dos repórteres. Não dava a mínima atenção para o que eles diziam. Não falavam de mim. É o que basta.
Depois disso nada de mais aconteceu.
No almoço, as dez pouco, comi o de sempre: arroz, feijão, beterraba, cenoura e repolho ralados. Dormi em seguida. Sonhei estranho. Casas velhas, abandonadas. Galhos secos esturricados pelo sol. Fazia calor no sonho. O suor pingava, do meu rosto, no chão.
Acordei ensopado. Fui tomar um banho. O tempo passou e fiquei sentado no vaso, sem fazer nada, por um bom tempo. Dei-me conta de que tinha de sair. Arejar as idéias. Fazer nada. À tardinha voltei. O pôr-do-sol me convidava para uma conversa a dois. Dialogamos muito. A noite atrapalhou nossa palestra. Fui convidado a entrar. Assisti aos programas dominicais de fim de tarde, jantei café com bolachas e um pouco de leite, voltei à TV. Fiquei na sua companhia até as quase 23 horas depois vim escrever isto. A folha já chega ao final e sei que quando terminar o dia de hoje ainda vou passar um bom pedaço esperando o sono chegar.