quinta-feira, 17 de setembro de 2009

AMOR ROMÂNTICO - José Alcides Pinto

I

Vejo-te em toda parte, em todo canto,
por onde ando tristonho e abstraído:
e a mim mesmo alheio e esquecido
vítima de teu olhar e teu encanto.

E sempre assim a andar, à-toa, errante
nas ruas da cidade, então pressinto
um vulto de mulher, e o passo sinto
ao encalço do meu, antes distante.

É ela! É ela! - grito com alegria
que ainda depois de morta ressurgia
para este amor tomar nas mãos geladas...

Que importa de onde venhas? O que importa
é que desejo-a mais depois de morta
como jamais quisera em algum dia.

II

E deixa-me tocar o seio ardente,
a carne florescente, as formas novas
do corpo inteiro. E as voluptuosas
mãos, que os lírios invejam, a boca ardente.

E deixa-me beijar as suntuosas
coxas, e entrelaçadas de repente
possa a pele cortar, como a corrente
corta o seio das ilhas vaporosas.

Deixa-me navegar essas nascentes
de águas tépidas e de brilho forte
- lágrimas puras de olhos tão fulgentes.

E para meu pesar ou minha sorte,
possa eu sentir da vida as diferentes
maneiras de viver, vivendo a morte.

III

O perfume de teu corpo caliente
entra-me n'alma, turva-me o sentido.
E ando à-toa, presto e dividido
em meio a tanta coisa e tanta gente.

E leve, aéreo, solto, distraído
não sei o que fazer, nem sei se pense
este amor reviver eternamente
de mágoas e pesares revestido.

Volto-me em toda parte, e em toda parte
vou me perdendo em mim, te procurando,
e assim a vida foge. E assim, destarte,

cada qual por caminhos mais distantes
sem se encontrar jamais, nesse contraste
que é tão próprio da vida dos amantes.

IV

E é tão ardente o amor, e o beijo ardente,
e o abraço vaporoso e mais sentido.
O corpo mais calor. E mais querido
o olhar mais peregrino e indulgente.

A morte à morta deu alento e vida
as formas de seu corpo. E as primeiras
ilusões do amor, e as derradeiras
esperanças do ser, na despedida.

Consentiu, outra vez, que o ser amado
a visse, e ela o visse, e despojado
do medo, que nos causam os defuntos...

Puderam se juntar num só instante
mas que esse instante fosse mais constante
que o tempo todo que viveram juntos.