Nada. Era o que tinha pra dizer. Somente um bocado de nada misturado à pequenos desejos de silêncio. Formado, crescido e bem alimentado, gostava de estar a cada anoitecer sentado à beira de si mesmo para contemplar o ocaso que ele via ser mais belo a cada novo dia.
Esperava ansioso ser recebido pelas nuvens e transportado para o além ao final da tarde.
Sentia-se liberto de tudo: pensamentos, coisas, pessoas, de si. Era como um Ícaro de asas invisíveis voando no nascer da noite, sem o calor do sol para derreter-lhe a cera da libertação.
Tocava as estrelas com seus curtos dedos de unhas polidas e feitas. Gostava quando a brisa misturava-se ao seu respirar e quando o sereno da noite cobria-lhe a pele. Gostava de sentir o arrepio que isso tudo lhe proporcionava.
Era como se o mundo não existisse naqueles momentos. Era como se as coisas tivessem virado poeira e orvalho. Era como se os pensamentos e tudo o que porventura viesse a lhe incomodar, diluissem-se na mais inocente brisa.
Naqueles momentos ele gostava de se sentir como se sentia... vazio e só. Mergulhado no seu nada singular e belo.