quinta-feira, 30 de junho de 2011

Nostalgia Presente

Deitado sobre si
lembrava de quando não tinha dezenove anos.
Elegia seus heróis e suas prostitutas,
também seus amantes.
Deitado sobre si
comentava suas honras de velho.
Regurgitava sentimentos novos,
recém comidos,
recém sentidos.
Deitado sobre si
Imaginava-se homem,
sem se perceber que não o era
de mentira.
Deitado sobre si
via os nós que não se juntam
aos eus de nossas relações erradas.
Pensava em somente ser sozinho
e poder, às tardes nostálgicas,
sentar-se sobre suas pernas e
sentir o peso de sua velha juventude
perdida.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Ermitão

gostava tando de sair pela madrugada dançando, cantando e correndo pelas ruas vazias que naquela noite ficou duas madrugadas seguidas fazendo crochê e comendo pão com doce de leite e tomando café com bolachas doces que havia esquecido de que o mundo em que vivemos é tão horrível e consumista que as pessoas que se sentem sozinhas são tão mais individualistas que aquelas que não sabem como fazer para que as coisas e as outras coisas e tudo o que não se escreve e não se sabe soletrar e também aquela torre enorme que fica perto da casa pequena e daqueles dois outros carros vermelhos e brancos como o azul do céu que é pintado com tinta fresca que nunca seca e quando seca a água que a gente bebe e sai pra dançar e cantar e correr pelas ruas vazias de gente pela madrugada até o sol acordar e acordar a todo mundo e assim acabar com nossa brincadeira.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Surr

Diferente de nós é o que não se esconde por fora.
Assim que a chuva começa a cair os braços sacodem os pensamentos.
Sentidos não são ouvidos nem gostados.
O mundo todo se contorce ao som de qualquer coisa que venha do mar.

sábado, 18 de junho de 2011

Tolerância

Tolerância é o que sentimos
Quando queremos não sentir.
É conter até a última gota o que        
Não quer ficar contido.
É ser parte de um conjunto de hipocrisias.
Tolerar é formar frases censuradas dentro de nós mesmos.

Esquivar-se

Deixo que o vento venha ao meu encontro.
Saberei assim, desviar meus pensamentos
E propor a mim um novo caminho.
Mais inconveniente e com menos rumores
Sobre meus atos.

O fim das indagações

Os enigmas que me presto a resolver
Envolvem-me numa rede de novas charadas.
Sento-me, ao ocaso de minhas indagações,
E respondo-me perguntando:
“ – Serei eu um poeta ou um pedaço de nada
Misturado à lucidez branca que nos remete o sonhar?”

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Cantor de Injúrias

Então, munido de suas palavras hesitantes,
Saíra às ruas como quem pede.
Atropelando-se por entre os citadinos
Que, sem saber quem ele é, ignoram-no friamente.
Seguro de que o que dirá não será ouvido
Despeja injúrias quentes junto aos pés
Irrequietos dos que assimilam o seu olhar.
Caminha. Cantando injúrias, caminha.

Poema Comestível

Entrelinhas me espremem
Numa poesia seca e insossa,
Até quando vou ficar temperando
Palavras para que, ao final,
Apresente algo “degustável”?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Férias Divinas

Ajoelham-se, os homens,
Clamando por misericórdia.
Mal sabem eles, coitados,
Que o Deus a quem se prostram
Está de férias.
Rezam em vão.

sábado, 11 de junho de 2011

Sem Parar

Tentando pensar n'alguma coisa legal pra poder continuar
meu trabalho pra entregar segunda e terça em dias quentes
de frio de quebrar a cuca de tanto pensar em
besteira de novo e de novo sendo que a gente
que nunca dorme e nem se sabe onde vão e foram
parar as coisas que não dizemos e quando fazemos
dá nisso, vírgula e ponto, outro ponto sem nó.
Sem nós nem nada de gente por perto pra desencaminhar
todo o projeto que se desfaz quando não se indica ninguém
pra nada. Só político pensa que pensa, o povo não sabe o
que diz, só diz.
Ponto.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

(Des)Humor

Sonhando acordado que um dia
irei sorrir mais e melhorar meu (des)humor
Então, para que mais querer se não serei
nada daqui a alguns anos?
Sorrio apenas, sem o querer, fazendo-o só
parte de mim, de minha aparência inútil e
descolorida, desbotada, desiludida.
Seria mais fácil a morte se não tivéssemos tanta vida
para jogar aos ventos que nos reservam os deuses
ou O Deus, grande e obsoleto.
Deixem-me apenas sonhar acordado para
que quando acorde eu possa dormir mais sossegado.