domingo, 25 de janeiro de 2009

Temístocles


Temístocles. Era assim que se chamava. Possuía um nome não tão comum, porém mais incomum ainda era o seu comportamento. Levantava-se pela manhã, por volta das seis e meia, e caminhava pela estrada entre árvores que separava seu bairro do restante da cidade. A alameda não era grande coisa e nem se podia caminhar direito por causa dos paralelepípedos soltos aqui e acolá. Possuía alguns flamboyants, duas ou três mangueiras e a maior parte do caminho era feita basicamente de eucaliptos. Sempre com um bloco de notas no bolso acompanhado de uma caneta de tinta azul ele sentava no meio-fio caiado e rabiscava ninguém sabe o quê. Talvez suas memórias solitárias ou alguma prece, quem sabe escrevesse poesias ou quem sabe não escrevesse nada. Ficasse ali, sentado, observando o tempo passar diante dos seus pés, rabiscando mais uma das infinitas páginas do seu bloco de notas.
Temístocles voltava sempre antes das sete para fazer e tomar um café preto e, em seguida, um copo de leite meio morno. Ele sempre separava o que deveria vir junto. “– Não gosto de juntar as coisas.”, repetia essa frase sempre que lhe indagavam sobre a estranha mania. Quem sabe seria por esse motivo que ele vivia sozinho, sem se juntar a ninguém. Aliás, sua mãe sempre o visitava aos fins de semana ou ele à ela num movimento reciprocamente vicioso. Possuía um jardim onde cultivava várias espécies de cactos, girassóis e roseiras. Antes de sair, depois do café rápido, ele parava e olhava para todas as roseiras, para cada cacto e para cada girassol. Ligava a mangueira e aguava a todos sem faltar a nenhum, desligava a água e saía com sua valise de couro legítimo para o trabalho.
O observei durante duas semanas, sem que ele percebesse claro. A cada dois dias ele mudava de caminho, ia pelo mais longo. Temístocles trabalhava num cartório da cidade. Sempre as mesmas coisas, casamento, autenticação, certidão de nascimento, todos os dias. Ganhava bem para um sozinho. Não reclamava. Nem por ser sozinho. À tardinha voltava pra casa. Almoçava num restaurante de um amigo de infância que ficava na rua da frente do cartório onde trabalhava. Quase sempre comia a mesma coisa: frango com arroz e um pouco de feijão, separando o feijão do arroz, comia a um e depois ao outro. Às quartas-feiras pedia bife de fígado, um pedaço médio, com macarrão e purê de batatas. Fui me informar sobre o processo de casamento. Percebi que ele usava uma aliança na mão esquerda. Uma aliança grossa. Recebi as informações e saí.
Soube por vizinhos, poucos, que ele havia casado há muito tempo com uma mulher alta, branca e de cabelos negros, mas esta sumira. Ele dizia que sua esposa tinha viajado, que estava doente e que voltaria um dia. Muitos não acreditavam dizendo que ela o havia abandonado porque ele era mais atencioso com seus girassóis do que com a mulher e que ouviram certa madrugada uma discussão entre os dois e no dia seguinte ela havia partido. A partir da partida da mulher ele passou a cultivar, além dos girassóis, também à cactos e roseiras.
Recentemente ele recebera cartas, ouviu-se choro e o som de uma harpa tocando uma música triste. “– Era como se ele tivesse recebido a notícia da morte da mulher.”, falou-me uma senhora, vizinha de Temístocles. A partir desse dia ele mudou o comportamento. Continuou o mesmo, mas mudado. Parecia mais jovem apesar dos seus quase quarenta anos. Sua mãe passou a visitá-lo mais vezes, choravam juntos suas mágoas, cantavam juntos suas alegrias, comiam juntos separando o arroz do feijão, o café do leite e até a manteiga do pão.
Dona Terla, mãe de Temístocles, também morava sozinha. O marido morrera há muito tempo de complicações cirúrgicas. Daí por diante vivera com seus dois filhos: Cláudia e Temístocles. Aquela se casara com um português e fora viver no Velho Mundo e este se casara um tempo depois com uma mulher de longos cabelos negros e de pele branca como as nuvens na primavera, deixando a mãe sozinha numa enorme casa com alpendres. Agora os dois, mãe e filho, estavam sozinhos e partilhavam disto juntos e eram tristes e felizes assim.