quarta-feira, 6 de julho de 2011

Líquido

Lia tudo o que via pela frente. Pedaços de papel em branco, pequenas anotações em folhas de jornal, embalagens de bala. 
Lia também o que não vinha escrito. Utilizava seus olhos dos dedos, como se referia à essa estranha forma de leitura, para ler as imagens. Quando eram coloridas demais dizia serem um bom romance imaginativo. Quando era em preto e branco apenas contemplava com os olhos da face.
Lia coisas minúsculas como as formigas e os grãos de areia. E lia também as coisas grandes que ficavam em volta do céu e embaixo das casas. Era uma pessoa que não se importava com o tanto de páginas que lhe ofereciam os escritores do nada. Queria apenas poder ter o prazer de decifrar as coisas com os olhos dos dedos e os olhos da face. 
Certa vez pôs-se a contemplar o mar, numa leitura infinita e bela. Calma, com marolas, sem fases eufóricas da Lua. Admirava a espuma, o gosto, a textura que o mar tinha quando se encontrava com seus pés, e quando chegava também nos joelhos. 
Resolveu ir mais longe, ler mais de perto o que estava escrito dentro do mar. Sentiu uma coisa gostosa quando a água leu suas partes íntimas. Foi estupendo!
Quando o mar cobria-lhe os ombros viu que aquela era a hora exata da transubstanciação. 
Transformara-se em letras de mar.
Virara um livro para os outros lerem com os olhos dos dedos.
Transformara-se, acima de tudo, em uma infinita leitura sobre a felicidade.

Nenhum comentário: