terça-feira, 10 de julho de 2012

Trindade Pagã

     Sensivelmente podia-se ver claramente seus olhos enegrecidos pela penumbra do quarto frio. Por uma fresta entrava o ar que, aos poucos, ia fundindo-se ao bolor dos pães sobre a mesa promovendo uma sensação de esquecimento.
     O ontem parecia não existir apesar de um anteontem presente se mostrasse vívido num amanhã que insistia em se fazer ausente. Havia um relógio parado logo acima da penteadeira, ao lado de um crucifixo inútil, pois ali, naquele recinto, todos eram ateus. Contudo, dos três que dividiam o lugar, o mais novo transmutara-se para o ateísmo havia algumas horas e já estava disposto a despir-se de toda bagagem que o remetesse a qualquer centelha de religião ou crença.
     Assim, por mais que não quisesse, estava destinado a ser o que sempre quisera, mesmo sabendo que poderia fugir ou modificar isso.
     Dormiam num único corpo, possuíam-se numa única dança e viviam como teriam de viver.

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